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quarta-feira, 22 de junho de 2011

O Paraguai pós-ditadura numa ficção nem tão fictícia assim

Miss Ameriguá, do diretor chileno Luis Roberto Vera, é uma trama de ficção paraguaia rodada em 1994, 20 anos após a última pelicula deste tipo rodar no país.

O contexto é o de um Paraguai recém-ingressado na democracia após 35 anos da ditadura Stroessner, derrubado em 1989. A trama se passa no ano de 1994, um ano após o povo eleger seu presidente, algo que não ocorria desde 1811, ano da independência. Essa suposta democracia é o tema principal do filme.

A cidade fictícia de Ameriguá vive o dia da eleição de sua Miss. Uma típica cidade do interior, ainda assombrada pelos fantasmas da ditadura, representados pelo coronel Augusto, que não exerce cargos políticos mas age como fosse dono da cidade, com força suficiente para manipular a eleição da Miss. As principais candidatas são três: a filha do tal coronel, a namorada do filho do coronel e sua amante, uma filha de camponeses cujo pai foi assassinado por este mesmo coronel há 20 anos. Mas um acontecimento imprevisível aguarda os principais envolvidos na trama...

O coronel é assassinado na noite da eleição pelo irmão de sua amante , de volta à cidade para vingar a morte do pai. Naquele momento, já não mais importava o resultado da tão aguardada eleição, e sim a queda de um ditador disfarçadamente democrático. O povo de Ameriguá poderia sentir-se mais livre do que nunca, graças a um corajoso filho de sua terra.

As personagens são bem representativas não só de uma cidade do interior, mas de todo um Paraguai ainda sofrendo com as mazelas deixadas por Stroessner e seus seguidores. O coronel, dono de uma cidade, representa os donos do país, magnatas, corruptos e políticos de todo tipo. A democracia disfarçada, marcante na América Latina, sempre obediente aos interesses externos desde sua colonização. A amante do coronel, que se rende a seu poder sonhando com a coroa de miss, alude a uma população sonhadora com dias melhores para sua terra, com dias em que a justiça e a igualdade social farão parte não só do dicionário, mas também do cotidiano da população paraguaia. A imprensa manipulada, claro, não poderia ficar de fora. Quem a representa é um jovem rapaz, sonhador em fazer um jornal independente, mas no momento tendo de se contentar em escrever para o jornal do coronel, o único da cidade. Não pode faltar, claro, o herói. Evaristo, o assassino do coronel Augusto, é como alguém disposto a enfrentar o perigo de se lutar contra um sistema ameaçador.

Uma das cenas mais interessantes é o discurso do adido cultural japonês na abertura do concurso de Miss. Tem seu discurso trocado por alguns dos organizadores, e sem entender muito de espanhol cai direitinho na peça. Acaba discursando uma leve crítica contra o imperialismo norte-americano (o império das batatas-fritas, hambúrgueres e hollywood) e falando de um Paraguai disfarçadamente democrático. A cena representa a ira de alguns paraguaios conscientes de quem manda em seu país, e a manipulação do discursso mostra a necessidade de se utilizar truques para a expressão de opiniões que vão de encontro aos interesses dos poderosos.


Um filme que reprenta muito bem a história dentro de uma estória.

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