Pesquisar este blog

sábado, 24 de dezembro de 2011

Uma França contraditória na tela dos cinemas

Filme do franco-argelino Rachid Bouchareb integra a mostra de Cinema Franco-Árabe no Centro Cultural Banco do Brasil

Dias de Glória vai além de um filme de guerra comum, onde as cenas de combate são, muitas vezes, mais importantes do que a história. Aqui, o objetivo é abordar a condição dos soldados argelinos incorporados ao exército francês.

Escalados para as missões mais arriscadas, ou muitas vezes lançados como verdadeiros escudos-humanos (são os primeiros a enfrentar as balas inimigas, poupando muitos franceses do sacrifício), essas tropas formadas em sua maioria por argelinos e tunisianos sofriam preconceitos dentro do próprio exército francês de libertação. Após a reconquista de alguns territórios franceses, viam seus "compatriotas" com permissão para retornar à casa, enquanto os árabes amargavam mais tempo filiados às tropas. Restrições a alimentos e dificuldades para conseguir promoções também eram situações rotineiras. Era-lhes imposta a condição de militares de segunda linha, fosse qual fosse seu desempenho nos campos de batalha.

Essa desprezo causa ainda mais indignação quando se avalia as condições do exército francês após a ocupação alemã em 1940: a acuada França rende-se e cria um governo "de fachada", na cidade interiorana de Vichy. Essa submissão põe o exército francês de mãos atadas, assistindo complacente à humilhação de um governo colaboracionista com os invasores.

Daí que o general Charles De Gaulle vai para Londres, de onde organiza a ofensiva contra os germânicos, criando as Forças Francesas Livres. Mas sua captação de desertores não foi de grande êxito. aí entram os argelinos nessa história: a necessidade da incorporação de tropas das colônias africanas se faz fundamental para a composição dos Franceses Livres. Sem esse contingente, a criação de um exército francês contrário a Vichy não seria possível, ficando a França dependente da ajuda dos aliados ingleses e norte-americanos, sem condições de quaisquer barganhas. Neste ponto, os Franceses Livres se fazem necessários não só no teatro de operações, como também evitar uma fragilização política ainda maior da França - na concretização da libertação francesa, o que poderiam os franceses exigirem, se não tivessem contribuído para a vitória?

O lançamento do filme, no festival de Cannes de 2006, acendeu o debate sobre a participação desses povos na história francesa, e sua justíssima incorporação à sociedade. A pouca importância dada pelo governo Sarkozy em resolver este tipo de questão torna

Vale destacar, contudo, que os árabes eram aclamados pelo povo francês por onde passassem. Atualmente, porém, a situação é bem diferente: vítimas de preconceitos de toda a sorte, seja por parte de cidadãos comuns, grupos xenófobos e até políticos - a direita extremista tem como plataforma de campanha a segregação dos imigrantes - são mais um caso de preconceito em uma grande potência mundial. Reparar uma injustiça histórica seria o principal interesse de Rachid Bouchareb, além de pôr em xeque a real aplicação dos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade - que fazem soar ainda mais estranho à República Francesa este tipo de preconceito.

Segue o trailer do filme:

Nenhum comentário:

Postar um comentário